Sobre a peça
A escultura de parede Véspera é a escada da sobrevivência. Ela fala sobre uma subida nem sempre justa, em que cada degrau conquistado é apenas o ponto de partida para a próxima urgência.
A peça inspira-se em Sísifo e ecoa para a contemporaneidade. Na mitologia grega, Sísifo é sentenciado a empurrar uma rocha montanha acima, apenas para vê-la cair e ser forçado a recomeçar por toda a eternidade. Essa peça é o corpo físico desse esforço interrompido. Ela não representa o topo alcançado, mas a fadiga de quem vive no "quase", em um ciclo onde o descanso é sempre uma promessa adiada para o dia seguinte.
Os vãos esculpidos na madeira não são respiros poéticos; eles representam a angústia de quem habita a véspera de uma conquista que pode nunca chegar. Em um mundo onde a sobrevivência exige um esforço repetitivo e muitas vezes invisível, a escultura traduz a ansiedade de quem precisa se manter de pé enquanto as circunstâncias da vida empurram tudo para baixo.
Ao fixar essa tensão na parede, a peça abraça a crueza da realidade. Ela testemunha a jornada de quem conhece bem a necessidade de movimento. Véspera é cansaço e resistência: uma estrutura que, mesmo marcada por ausências e feridas na matéria, insiste em não cair. É a prova de que, para muitos, a vida não se resume a uma linha reta rumo ao sucesso, mas a uma sucessão de vésperas incertas e pesadas. Mais do que isso, é um lembrete: o de que o topo, quase sempre, é só ilusão.