Sobre a peça
Essa escultura de parede é inspirada no poema de Alphonsus de Guimaraens sobre Ismália, a mulher que vê duas luas ao mesmo tempo — uma no céu e outra no mar. Incapaz de distinguir o objeto real de seu reflexo, a personagem perde-se em duplicidade, dividida entre o desejo de subir e a vontade de mergulhar.
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
As extremidades da escultura estabelecem a binariedade — alto e baixo, céu e mar, o inalcançável e o concreto. Entre elas, a torre; o corpo em madeira que representa a distância angustiante entre ambição e realidade. O lugar de onde se vê, mas também o lugar que separa o que se quer do que se tem.
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
Enquanto a alma busca o infinito, o corpo aceita a gravidade. A escultura é o ponto de maior tensão: o retrato desse estiramento limite antes da quebra definitiva. Cabe ao observador decidir se a verdadeira liberdade só acontece quando finalmente nos permitimos cair por inteiro.